Pessoal,
Eu sugiro uma leitura comparativa da coluna do Elio Gaspari de hoje no
mesmo O GLOBO (a propósito, a entrevista do Elio com o Senador Suplicy é,
em minha opinião, maravilhosa).
Abraços,
Fabiano
O GLOBO
Rio, 12 de Abril de 2003
Colunas < O País < Luis Fernando Verissimo
Estava escrito
Depois do sucesso da invasão do Iraque pelos Estados Unidos, quem quiser
saber o futuro do planeta deve procurar uma série de textos escritos por
Paul Wolfowitz e outros na revista “Weekly Standard”, editada
por William Kristol, nos anos 90, ainda durante o governo Clinton. Os
textos faziam parte de um projeto para um Novo Século Americano e podem ser
consultados como se consulta um roteiro, para saber o que vem agora. Porque
está tudo lá, a começar pela ocupação do Iraque para, entre outras coisas,
intimidar a Síria e o Irã e dominar os recursos e a política da região. As
repetidas ameaças do secretário de Defesa americano Donald Rumsfeld à Síria
já estariam preparando o terreno para o passo seguinte.
Wolfowitz, Kristol e os outros idealizadores do projeto, como Richard Perle
e John R. Bolton, acabaram formando o núcleo de ideólogos neoconservadores
que assumiram a política externa americana com a eleição de Bush, para
desconcerto inclusive da velha-guarda republicana como Bush pai, James
Baker etc. Num artigo recente na “New Statement” sobre esta
tomada de assalto do poder americano pelos neoconservadores, Michael Lind
identifica no “pentágono” que sustenta a clique — além do
lobby da direita israelense, fundações conservadoras com financiamentos
milionários como a American Enterprise Institute, institutos de estudo
direitistas e impérios de mídia como o de Rupert Murdoch — o
fundamentalismo religioso americano. Este pode dizer que a vitória sobre o
Mal representado pelo fundamentalismo satânico (o outro) está previsto nos
versos milenaristas da Bíblia. Os pragmáticos do movimento também podem
dizer que tudo já estava escrito, mas no “Weekly Standard”.
A forma como se deu a ascensão dos neocons e o triunfo do seu projeto para
uma América uber alles provoca espanto — e teses conspiratórias a
gosto. Nada teria acontecido se não tivessem roubado os votos do colégio
eleitoral da Flórida de Gore (que ganhou na votação popular nacional), com
a ajuda da maioria conservadora da Corte Suprema. Ou se o escolhido para
vice não fosse o Dick Cheney, que providenciou a aproximação de Bush com os
homens do Projeto e acrescentou uma sexta ponta ao pentágono, a
conveniência para o complexo industrial e petroleiro da nova e lucrativa
disposição guerreira. Ou se não tivesse acontecido o 11/9.
O roteiro está sendo seguido e está dando certo. O Século Americano começa
ao contrário de como terminou o mundo no poema de Eliot, com um estouro. E,
vá lá, alguns gemidos também, mas estes são só de crianças desmembradas.
Estamos falando de coisas sérias.