Jornal Tropical São Tomé 16-11-2007
http://www.jornaltropical.st/taiwan.htm
40 ANOS DA GUERRA DO BIAFRA, UM MONUMENTO INTERNACIONAL À AJUDA
HUMANITÁRIA EM SÃO TOMÉ
A Associação Caué quer levar a Património Mundial vestígios do
acontecimento.
Há 40 anos, no dia 30 de Maio de 1967, foi proclamada a República do
Biafra, que separando-se da Nigéria trouxe as convulsões políticas e
matanças indiscriminadas que se seguiram aos primeiros anos daquela
federação. Essa proclamação esteve na origem de uma das guerras mais
sangrentas e de um dos maiores genocídios que o mundo vira até
então – a Guerra do Biafra –, o que incluiu a mais terrível das
fomes: mais de 1.500.000 civis, a maior parte dos quais crianças,
sucumbiram ao drama.
A Ilha de São Tomé viveu de muito perto esse episódio histórico.
Entre Julho de 1968 e Janeiro de 1970, a Joint Churches Aid (Ajuda
Conjunta das Igrejas) organizou desde São Tomé uma ponte aérea
humanitária que, graças à perícia dos pilotos de diferentes
nacionalidades em perigosos voos nocturnos, enganando a artilharia
nigeriana, garantiu muito do abastecimento básico recebido pelos
assediados biafrenses. Os aviões da JCA (também conhezidos
como "Jesus Christ Airline") fizeram inúmeras viagens (faziam-no
várias vezes ao longo da noite) e participaram na evacuação da
população indefesa daquelas áreas onde o genocídio era certo.
Os coordenadores do JCA, as autoridades da Ilha e a população civil
empregaram-se a fundo na organização da ajuda humanitária, com
feitos heróicos (ou simplesmente humanos) que ficaram gravados na
memória das pessoas que viveram esse momento – mesmo nas lendas e no
imaginário popular. O porto e o aeroporto de São Tomé registraram
uma actividade intensíssima, como jamais tinha acontecido até então;
o seu mercado encheu-se de cooperantes, religiosos, médicos,
lojistas e militares…, mas também de aventureiros, mercenários,
contrabandistas e especuladores vindos dos lugares mais remotos do
planeta.
São Tomé converteu-se naquela altura num hub de apoio internacional
e o seu nome voltou a aparecer no mapa mundial, nessa altura como a
capital da humanidade mais sentida que lutava contra a
irracionalidade e a barbárie. A esse momento histórico está ligado a
impulsão ou a criação das modernas ONG mundiais, como "Oxfam"
ou "Médicos sem Fronteiras", criadas algumas como resposta efectiva
às necessidades de atenção urgente dos contingentes de refugiados,
que infelizmente estão a provocar os conflitos territoriais, também
nos nossos dias.
Na actualidade, os restos de dois dos aviões utilizados nessa ponte
humanitária – dois Lockheed "Constellation" L-1049H ("Connies"
ou "Superconstellation"), à mercê das inclemências do clima desde o
fim da guerra –, são os testemunhos silenciosos desse episódio,
quase esquecido, da história contemporânea de São Tomé e Príncipe e
da África Ocidental. Constituem um espaço delimitado dentro do
recinto aeroportuário, ocupado por um conhecido estabelecimento
gastronómico: o restaurante "As Asas do Avião", graças ao qual têm
mantido alguma utilidade social.
No passado dia quatro de Setembro, uma plataforma internacional que
agrupa diferentes ONGs e pessoas individuais, impulsionadas pela
Associação Caué-Amigos de São Tomé e Príncipe, fizeram chegar, em
audiência especial, à Exma. Senhora Fátima Almeida, Ministra de
Cultura da República Democrática de São Tomé e Príncipe, uma petição
para que o Governo são-tomense reconheça o valor histórico e
cultural desses dois aviões e os considere oficialmente Monumento à
Ajuda Humanitária. Esta petição era acompanhada por um anexo
documental onde constavam os diversos apoios já recebidos. Na
audiência participaram representantes da Associação Caué e de outras
ONGs nacionais.
No documento solicita-se expressamente ao Governo da República que
tome em consideração o pedido dos signatários da campanha para que
os restos das duas aeronaves sejam declaradas, do ponto de vista
legal, "Monumento à Ajuda Humanitária", passando a formar parte do
património nacional são-tomense, reconhecendo-se, assim, a
necessidade da sua preservação para a memória histórica. Também se
solicitou à Senhora Ministra que seja considerada seriamente a
restauração e a consolidação dos aviões e do espaço que estão a
ocupar, e a possibilidade de transformar um dos dois aparelhos, em
centro de interpretação da história da ajuda humanitária e da
mediação e resolução de conflitos, acção que poderia vir acompanhada
da organização de conferências e exposições sobre a temática da
ajuda internacional e a instalação em lugar visível de uma placa de
homenagem aos homens e mulheres que participaram na ponte aérea.
A declaração deste Monumento é tanto mais significativa quanto em
todo o mundo nunca antes foi feito um reconhecimento explícito da
utilidade social da ajuda humanitária como o que é proposto.
Resguardado de qualquer leitura enviesada, este acto seria algo
particularmente inovador, propiciando a publicidade sobre um aspecto
que pode ser indiciador de uma mais-valia competitiva para São Tomé
e Príncipe como centro internacional de diálogo pacífico e de
resolução de conflitos: uma medida original e ousada, portanto,
capaz de impulsionar o papel do país como lugar central no Golfo da
Guiné e na África Ocidental; não apenas como centro turístico, mas
também como centro de encontros, convenções e férias internacionais.
A Senhora Ministra Fátima Almeida recebeu com muito interesse o
pedido e garantiu o seu estudo e a sua inclusão na agenda do
Conselho de Ministros. Acrescentou que precisamente a sua mãe, como
muitos são-tomenses nessa altura, participou directamente no
dispositivo da ajuda humanitária, tendo sido enfermeira encarregue
dos meninos biafrenses deslocados para as Ilhas. Também deu conta da
sensibilidade manifestada em diferentes ocasiões pela maioria dos
membros do Governo são-tomense sobre a necessidade de preservação
destes aviões como elementos de interesse histórico nacional.
Paralelamente a essa audiência, os proprietários do Restaurante "As
Asas do Avião" (actividade económica que actualmente ocupa os aviões
em causa em regime de concessão) ofereceram um almoço aos
representantes da Associação Caué, demonstrando assim a sua total
convergência com a proposta da campanha. A ocasião foi aproveitada
para admirar de muito perto os dois aviões e avaliar in situ outras
possibilidades de aproveitamento. Nesta altura, a empresa está a
preparar o espaço inferior do segundo avião como dancing e considera
seriamente a possibilidade de reabilitar o interior do aparelho
(neste momento muito danificado) como sala de exposições, seguindo a
proposta da campanha de reconhecimento histórico.
A estrutura dos dois aviões mantém-se inteira e o seu estado é ainda
bom, apesar da passagem do tempo, da erosão provocada pelo clima e
do vandalismo ao que estiveram sujeitos. A fuselagem ainda está
apoiada nas suas próprias estruturas (sem suportes adicionais), e
conservam-se todos os motores e hélices, mesmo os sobresselentes,
que ambos aviões ainda mantêm no seu interior. No exterior dos
aviões ainda se podem ver as diferentes camadas com que foram
pintados: a da Canairrelief e da JCA (com os dois peixes
entrelaçados) e também a anterior da companhia Nordair. Ambos os
aviões também conservam vários buracos produzidos pelos impactos
recebidos durante as incursões no Biafra.
Os donos do restaurante manifestaram o seu interesse em que o espaço
dos Connies, uma vez considerado Monumento à Ajuda Humanitária,
fique totalmente integrado nos projectos da futura remodelação do
terminal de passageiros do aeroporto internacional de São Tomé,
sobre a qual já se está a trabalhar.
Os representantes da Associação Caué mantiveram também entrevistas
com os representantes dos diferentes meios de comunicação e de
entidades e instituições culturais nas Ilhas com a ideia de destacar
a importância da efeméride do 40º aniversário da República de Biafra
para a história contemporânea são-tomense e da sua relação com os
Connies do aeroporto. Destacou-se também a importância em aproveitar
a ocasião para celebrar eventos culturais relacionados com esta
temática e elaborar documentos de difusão da cultura da paz, da
resolução de conflitos e da sublimação da ajuda humanitária
internacional, e, com certeza, do papel destacado de São Tomé e
Príncipe como lugar central na articulação política do Golfo da
Guiné.
Já no dia 5 de Setembro, a RTP-África difundiu uma notícia de 3
minutos de duração, no seu jornal do dia, sobre os aviões e sobre os
trabalhos de adaptação do segundo avião para actividades culturais,
impulsionada pela empresa do restaurante.
A Associação Caué e a empresa As Asas do Avião acordaram entre si
dar continuidade às acções junto das autoridades são-tomenses e da
sociedade civil com o objectivo de atingir os propósitos culturais
da campanha e a correcta preservação dessas peças de incalculável
valor histórico, as quais devem ser especialmente tomadas em conta e
integradas no próximo plano da reforma do Aeroporto Internacional de
São Tomé.
Alguns dados dos aviões L-1049H Superconstellation são-tomenses
Lugar de construção: Burbank, California
Momento: 1957
Numero de modelos L-1049H construidos: 53
Tripulação mínima de voo: 5
Capacidade de passageiros: normalmente entre 62-95.
Envergadura (wingspan): 37,49 m
Longitude: 34,65 m
Altura: 7,55 m
Peso aprox.: 36.000 kg
Peso de carrega: 29.620 kg
Velocidade màxima: 610 km/h
Velocidade de cruzeiro: 570 km/h a 6.890 m de altura
Autonomia: 8.700 km
Altura máxima de voo: 7.620 m de altura
Observação: Os Lockheed Constellation foron os primeiros aviones
transatlânticos de passageiros.