Bom...
Já vem com atraso a descrição da caminhada Nova Moka – Bombaim – São
João dos Angolares.
Nem refiro a data da caminhada para não parecer mal...
Mas sabem como é... começo a sentir a nostalgia de quem está prestes
a partir... É aquela sensação estranha quando se sai de África, de
regresso à Europa, sem data marcada para novo regresso a África
(vejamos quanto tempo desta vez...). Bemmm....
Isto de facto não tem nada a ver com caminhadas. Tem a ver com este
efeito que a vida em África provoca em nós. De facto como alguém me
disse um dia: África não tem meio termo: ou se detesta; ou nos
apaixona.
Mas regressemos à caminhada.
Saímos do Bairro da Cooperação Portuguesa às 06H00 com destino a
Nova Moka onde nos iríamos encontrar com os Guias: Carlos, Jorge,
Pires (não é esse), Fátima, Sílvia, Rita e Marilene. Como teríamos
de ser apanhados no dia seguinte em São João, desta vez optámos por
alugar uma Hiace (o táxi amarelo de São Tomé).
Ainda tivemos de parar no caminho para o Jorge (claro tinha de ser
ele) comprar vinho tinto Amália (vejam só) e água para o caminho
(tónica, não havia lisa).
Chegados a Nova Moka (acima de Monte Café) encontrámo-nos com os
guias e primeiro choque: tinham desconseguido o cabrito. Ops e
agora??? Só tínhamos pão... e para dois dias???? Como fazer? Não
equacionámos desistir até porque o Luís Mário (Melhor Guia de São
Tomé) disse que o conseguiríamos em Bombaim. E seguimos...
Primeiras duas horas a subir até Bom Sucesso e depois Lagoa Amélia
(a cratera do vulcão). Do topo avistávamos Bombaim o que até parecia
reduzir a distância. Mas tínhamos de contornar o vale.
Iniciámos então a descida. Passámos pelas ruínas da Roça Nova Ceilão
abandonada há mais de 30 anos. Era uma dependência da Roça Milagrosa
e em tempos dedicava-se entre outras produções à criação de bois.
Hoje restam apenas ruínas e acessos difíceis apenas a pé. Ainda
encontrámos a estrutura de uma cama a fazer de porta junto a um
muro. Passámos uma ponte e almoçámos uma das nossas únicas sandes
pois a partir daí contávamos com o cabrito. O João (o melhor
ajudante de Guia de São Tomé) deu-nos umas bananas Varela,
extremamente doces e muito amarelas por dentro (ainda não
conhecíamos).
O passeio estava a ser calmo, tranquilo, suave... só a Rita acusava
alguma dificuldade nas descidas. Ou os ténis escorregavam ou era o
medo dos declives...
Após o almoço continuámos em direcção a Trás-os-montes.
Impressionante o estado de abandono de uma casa de que se imagina a
imponência de outros tempos... A escadaria para o andar superior...
as árvores de fruto junto à casa... as plantações ainda existentes
totalmente ao abandono e a servir de alimento a ratos , morcegos e
macacos...
Enfim... Era uma das dependências da Roça Água Izé e está abandonada
há cerca de 30 anos.
Continuámos em direcção a Zampalma. Esta Roça está igualmente em
ruínas e fica do lado de lá do Rio. Ficámo-nos pelo Rio junto à
Cascata onde montámos o acampamento e tomámos um daqueles banhos de
cascata que... bem não vale a pena descrever porque só entende esta
linguagem quem toma um banho de cascata...
Zampalma era uma dependência da Roça do Amparo. Há cerca de 50 anos
pertencia a um Belga. E pasmem-se... Chegou a funcionar como casino
nessa época. É com dificuldade, e nó apertado no estômago, que
imaginamos aquelas estradas, hoje completamente obstruídas com
derrocadas e árvores caídas e nascidas, a serem percorridas por
viaturas e pessoas normais (sim porque hoje só aventureiros como nós
se atrevem a seguir por estes caminhos).
Entretanto o João foi a Bombaim (uma hora de relógio) para comprar
um cabrito ou algo "igualmente vegetariano"...
A água da Cascata estava fria... muito fria... mas ferviam as
sensações. Aquele som da água a cair... dos pássaros a cantar... da
água a correr pelas pedras do rio... e a sensação de que somos
merecedores de tamanha felicidade.
Ainda era cedo. 15 horas talvez. E ficámo-nos por ali. Só ficando...
ouvindo os sons do interior de São Tomé...
O Luís teria preferido caminhar mais uma hora por forma a não
sobrecarregar a caminhada do dia seguinte. Mas apetecia-nos mesmo
era ficar por ali. Afinal de contas era a primeira caminhada que
fazíamos com tanto tempo para ficar só a saborear o momento de estar
no interior da ilha a descansar. E com tanto tempo ainda pela frente
para descanso...
O João chegou já era noite. Afinal não havia cabrito. Mas conseguiu
3 patos.
E fez um guisado de "Pato à Zampalma" que estava divino. E regado
com vinho Amália claro. Havia que gastá-lo ainda assim não
tivéssemos de bebê-lo.
Como os guias não ingerem álcool, por razões religiosas, cozinharam
à parte "Pato Grelhado à Trás-os-montes".
Imaginem o cenário: à noite... ouvindo a água do rio a correr a 5
metros... o céu escuro (desta vez a Lua ia pequena) a mostrar umas
estrelas por entre as folhas das árvores...a comer um Pato Guisado
cozinhado á fogueira com um requinte que só visto... e a beber vinho
tinto de qualidade (felizmente já se tinha acabado o Amália). E no
final do Jantar beber um café mexido com pau de canela retirado de
uma árvore de canela que encontrámos em Nova Ceilão...
Claro que dormimos, quase todos, bem. A Rita e a Sílvia, que não
beberam vinho tinto, dormiram um pouquinho mal...(uma cansada a
outra a pensar sabe-se lá em quê).
No dia seguinte tomámos o café da manhã e partimos às 07H00.
Passámos por Água das Belas que nos anos 70 e 80 funcionou como
prisão. Ainda é possível ver as grades nas janelas. Hoje tem
famílias alojadas e uma escola recuperada que devia funcionar mas
pelos vistos não tem crianças lá... Mais um projecto financiado por
uma associação internacional com fundos, de todos nós, gastos mas
cuja finalidade...ops... fiquemos por aqui que isto não é política.
De seguida passámos por Bombaim e iniciámos a descida vendo ao lado
o pico Formoso Grande. Como era possível que ainda tivéssemos de
subi-lo. Mas subimos... E quando chegámos ao cimo... Bom aquilo é
que foi transpirar. Passámos pela Roça de São Paulo e descansámos 10
minutos.
O Guia alertou-nos... no dia anterior tínhamos andado pouco e estava
com receio de que não conseguíssemos chegar a São João durante o
dia. Não podíamos perder muito tempo até porque dali para a frente o
caminho estava muito fechado. Se até ali ainda havia pessoas que iam
de vez em quando à caça, da Roça Jô para a frente estava
completamente selvagem...
E seguimos sempre sem parar. As pernas já doíam e nem os macacos que
avistávamos nos animavam muito. Não se podia parar.
Se o caminho já era difícil de dia, imagine-se ter de o percorrer à
noite.
Passámos por Santelmo mas nem tivemos coragem de descer para tirar
umas fotos.
O mesmo com Cruzeiro. Já só queríamos mesmo era chegar ao fim.
Por volta das 16H00 chegámos a Vancarmo e aí sim... fomos
compensados com a notícia de que conseguiríamos chegar a São João
ainda de dia. De forma que tirámos uma fotos quer para o Pico Maria
Fernanda quer para o Cão Grande. Tem umas casas em mau estado, sem
estarem em ruínas, mas uma localização sobranceira absolutamente
magnífica.
E continuámos a descer até São João. A descida de mais uma hora foi
penosa... muitas pedras muitas dores de tornozelos mas muito alegria
por mais uma passeio magnífico.
Regressámos de Hiace após 10 horas e 15 minutos de caminhada . De
forma que houve quem tivesse conseguido dormir. Eu... Nem pensar...
Com aquele emplastro à minha frente que tinha ido fazer companhia
ao condutor!!!!