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34803249 crianças biafrenses em São Tomé (1968-70)

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  • Uba Budo no coração
    Jan 21, 2013
      Tela Non 21 Janeiro 2013
      http://www.telanon.info/sociedade/2013/01/21/12299/249-criancas-biafrenses-em-sao-tome-1968-70/

      249 crianças biafrenses em São Tomé (1968-70)
      Documentos resgatados do Arquivo Histórico Nacional

      Xavier Muñoz-Torrent
      Geógrafo

      O 10 de Janeiro de 2013 passado, o Arquivo Histórico de São Tomé e
      Príncipe (AHSTP) começou a dar a conhecer ao mundo o importante legado
      documental que dispõe em versão digital. Isso é graças à plataforma
      “Casa Comum” que se está a implementar em parceria com a Fundação
      Mário Soares (Lisboa) num projeto de tratamento técnico e de
      publicação em internet dos fundos documentais de arquivos nos países
      da CPLP. Esta é, com certeza, uma obra de excelência que valorizará
      enormemente o papel dos arquivos africanos na reconstrução da memória
      histórica nacional e internacional, pois vá disponibilizar documentos
      aos que até agora era muito difícil aceder, já seja pelo estado da
      catalogação, da sua manutenção ou simplesmente por razões físicas de
      falta de espaço e condições para a sua consulta ou exposição.

      Entre a primeira mostra do fundo do AHSTP publicada na plataforma
      digital, sobressai o capítulo dedicado à participação das ilhas no
      conflito do Biafra. Na mostra de “Casa Comum” aparecem publicadas as
      fichas de identificação de 249 crianças biafrenses refugiadas na ilha
      de São Tomé, entre setembro de 1968 e o fim dessa cruenta guerra, na
      qual os mortos por inanição superaram aos combatentes.

      A documentação exibida prove dos expedientes da chamada Comissão de
      Evacuação, Tratamento e Recuperação das Crianças Vítimas da Guerra,
      também conhecido entre os cooperantes como “Committee of Children”.
      Consiste de 249 fichas de identificação dessas crianças refugiadas,
      que contem informação básica sobre a sua filiação: data de evacuação
      do Biafra (chegada a São Tomé), nome e apelidos, nomes dos pais
      (quando se conhece), idade da criança à chegada, sexo (as fichas das
      meninas são de cor rosa, enquanto os dos meninos são cinzentas), e o
      lugar de origem, entre outras anotações úteis. As fichas se
      complementam ademais por uma fotografia da criança, que dá informação
      nalguns casos do estado de saúde ou o seu caráter, quando essas foram
      tiradas (com certeza algumas foram feitas mais tarde que na chegada).

      Infelizmente, essas 249 não são a totalidade das fichas de todas as
      crianças refugiadas, e, por tanto, a informação publicada não é a
      coleção completa (como já nos tem assinalado oportunamente George
      Enyoazu, que foi um desses meninos, hoje residente em Irlanda). Na
      realidade desse expediente falta por reproduzir (ou encontrar) como
      mínimo outras 189 fichas, o que elevariam a 438 as referências sobre
      menores biafrenses refugiados em São Tomé durante o conflito.

      Das fichas reproduzidas no site da “Casa Comum”, um 47% corresponde a
      meninas. Havia crianças com idade menor ao ano, mas alguns
      ultrapassavam os 10. Com tudo, a maior parte do grupo a constituíam
      criancinhas que não tinham cumpridos os 4 anos de idade, que eram mais
      da metade. As mais velhas eram mulheres: Theresa Anyanwu, de 11 anos,
      e Essien de 12, esta última órfã, sem pais conhecidos e, por tanto,
      sem constância do seu apelido.

      Segundo a documentação, a primeira evacuação desde Biafra aconteceu o
      4 de setembro de 1968, num dos Superconstellation de carrega da frota
      da Joint Churches Aid (JCA) que regressava do aeródromo de Uli. Os
      pais das crianças, com grave risco para as suas vidas, desafiando os
      bombardeios indiscriminados e franco-atiradores, se apresentaram por
      surpresa em baixo do avião e insistiram em entregá-los à custodia do
      pessoal do voo. Nessa ocasião, foram uma vintena de crianças, que
      embarcaram praticamente nuas, cena amplamente relatada pelas crônicas
      do momento e por documentários posteriores.


      A esse primeiro grupo seguiram 23 mais. O último foi o de 27 de
      dezembro de 1969, poucos dias antes da queda do aeródromo e o início
      do desenlace. Aquele deveu ser o mais numeroso, pois se pressagiava um
      massacre final, que, por fortuna, não aconteceu.

      A chegada desses pequenos refugiados representou para a JCA e para as
      autoridades coloniais das ilhas um novo frente de atuação, pois
      inicialmente o dispositivo aéreo era apenas para enviar víveres e
      medicamentos, e não para evacuar pessoas. Os responsáveis da JCA
      deveram criar rapidamente um sistema de acolhimento sanitário para
      essas crianças (muitos estavam afetados por desnutrição e mesmo pelo
      terrível síndrome do kwashiorkor) e também educativo e de assistência
      social, pois o tempo que alguns iam ficar em São Tomé seria superior a
      um ano. O sistema foi organizado principalmente ao redor das
      estruturas das ordens religiosas destacadas na ilha, com a logística
      de Caritas Internationalis e o decisivo apoio financeiro dos outros
      parceiros da JCA, que mesmo incluía o pago de uma espécie de “pedágio”
      às autoridades coloniais portuguesas por permitir manter as crianças
      na ilha.

      Há outros pormenores a estudar. Um é a relação de parentesco de
      algumas das crianças refugiadas. Há certeza de alguns irmãos, e alguns
      dos apelidos concordam, ainda que não se possa fazer deduções diretas
      sem confrontar com detenção as fichas. O apelido que mais abunda é
      Opara, que deve ser muito frequente na região.

      Outro dos aspetos são as assinaturas das pessoas que integravam a
      Comissão de Evacuação, Tratamento e Recuperação das Crianças Vítimas
      da Guerra. Uma delas, perfeitamente reconhecível nos cartões, é a do
      padre Anthony Byrne, irlandês, diretor de Caritas em África.

      Depois da guerra, as crianças foram repatriadas, ainda que, como nos
      explicou a madre Angelina de Almeida (Ordem Canossiana em São Tomé),
      “nenhuma criança queria ir embora!”.

      A informação é muito relevante porque arranca do anonimato a esses
      miúdos protagonistas do drama. Em efeito, estão a visualizar imagens e
      nomes a essas pessoas. Tiveram sorte, pois a maioria puderam
      recuperar-se das suas doenças e sobreviver em São Tomé nas mãos de
      curadores atentos, alguns religiosos, alguns civis. Nessa altura é que
      as autoridades São-tomenses têm mais uma vez a oportunidade de honrar
      essas pessoas e fazer memória de um dos mais tristes episódios da
      história contemporânea de África.

      Será interessante conhecer o que aconteceu nas suas vidas depois do
      seu regresso e o impacto emocional da sua estada em São Tomé. Isso é
      uma tarefa a fazer, pois os mais novos estariam agora ao redor dos 44
      anos de idade e a da mais velha dos 55. Com todo, é agora que vê à luz
      a documentação, e a primeira vez que as crianças têm imagem e nome das
      quais se fala na extensa literatura escrita sobre esse terrível
      episódio da história africana.

      Sobre a entrada em cena de São Tomé no conflito do Biafra já há tempo
      que iniciamos uma série de artigos e entrevistas publicadas nos meios
      de comunicação de São Tomé [vid o relatório “Biafra e a ponte aérea de
      São Tomé”, 2011, consultáveis on-line na sua versão portuguesa no site
      da Associação Caué-Amigos de São Tomé e Príncipe, Barcelona:
      http://saotomeprincipe.eu/caue_projetos/caue_activitats/caue_biafra2011.htm%5d,
      tendo como principal objetivo conhecer as vivências das pessoas, cada
      uma de elas desde a sua própria perspectiva. Agora temos a
      oportunidade de conhecer mais um bocado sobre os protagonistas
      direitos da história.

      A lista completa das referências de localização das fichas pode-se
      consultar no repositório de documentos da Associação Caué, no endereço
      eletrônico: http://issuu.com/saotomeprincipe/docs/249biafrachildren1968_1970