Loading ...
Sorry, an error occurred while loading the content.
 

Polifonias e exorcismos

Expand Messages
  • Uba Budo no coração
    Artigo publicado no Correio da Semana sábado 11/12/2010 *Polifonias e exorcismos* Xavier Muñoz-Torrent, geógrafo Estou a ler o último livro da professora
    Message 1 of 1 , Dec 17, 2010
      Artigo publicado no Correio da Semana sábado 11/12/2010
       
      Polifonias e exorcismos
       
      Xavier Muñoz-Torrent, geógrafo
       
      Estou a ler o último livro da professora Inocência Mata, “Polifonias insulares. Cultura e literatura de São Tomé e Príncipe” (Ed. Colibri, fev. 2010, 237 pág.), que recolhe os artigos que, sobre a matéria do subtítulo (em especial sobre a literatura), escreveu a autora nos últimos tempos em diferentes foros ou revistas. O estou a fazê-lo bastante devagarinho, porque não gostaria perder nenhum matiz dos muitos que a professora vai pinçando de cada um dos temas, de cada um dos autores, construindo uns interessantes relatos além da própria escrita, para entrar numa análise clínica, mesmo psicológica, tão intrigante ao leitor como a heterogeneidade que porventura entendi do título: vai falar de um coro de vozes, de estilos diferentes, mas que estão a tecer, entre todos, uma mesma música, que não destoa, senão que cria uma rara e especial sonoridade ao redor de sentimentos profundos, mesmo em campos dispares, sobre o país e as circunstâncias históricas e vivenciais que envolvem a cada um dos autores estudados.
       
      Adquiri o novo livro no ato de apresentação que se celebrou na mediateca anexa ao cinema Marcelo da Veiga, na Cidade de São Tomé, na tarde do dia 5 de Agosto passado. Eu cheguei um bocadinho atrasado ao encontro e a sala estava cheia como um ovo. Fiquei muito atrás, perto da saída. Encontrei caras conhecidas e sorrisos de cumplicidade entre tanta expectação. A sala estava tão cheia que o ar ficou saturado e, pelo menos, onde eu estava àquilo parecia uma pequena sauna. Mais ainda quando apareceram os técnicos da televisão, os quais, legitimados pelo poder da imprensa, reclamaram imediatas aperturas para instalar o tripé da câmara e tirar-nos mais espaço do pouco que dispúnhamos (terríveis esses jornalistas que acham que gravar a notícia é primeiro que o interesse dos espectadores), de forma que fiquei incrustado na mesa que fazia as vezes de recepção e de stand de venda de exemplares. Com os livros tão perto, era impossível resistir-me a ficar com uma cópia. E como podia ver muito pouco desde lá atrás, decidi folhear o livro enquanto ia escutando os discursos e também algum dos cochichos que, em voz baixinha, ao meu lado, advertiam da presença de personagens destacadas [Como aprendi de um dos meus professores de História do Arte, a arte não é apenas o objeto em si, senão também todo aquilo que fica ao redor do objeto, que se faz com o objeto. Por tanto, o ato tinha especial interesse, porque aquela era uma distinta congregação dos elementos mais destacáveis da cultura da Cidade e, por tanto, um dos encontros sociais imprescindíveis da minha estada de gravana. Mas não só por isso: eu sempre estou interessado nas reações e nos comentários vários das pessoas e no valor espontâneo que dão realmente às palavras: eles também são parte da obra, e às vezes dizem mais do seu impacto].
       
      O livro abriu-se por um poema de Tenreiro (o meu admirado geógrafo, e agora ainda mais admirado poeta), que achei genial para a minha catarse africana: “... És tu minha Ilha e minha África, forte e desdenhosa dos que te falam à volta”, li. Tomei ar com força e senti-me quase em transe por essa pincelada de humanidade, de saotomensidade, de africanidade (também um bocadinho pela falta de oxigênio e excesso de umidade)... Fechei o livro e, ao levantar os olhos, estava já a doutora Mata a falar, também muito emocionada, sobre a valorização da cultura como a força da nação, e muito em especial da necessidade de preservar a língua como o bem mais prezado, como o elemento-chave para dar coesão ao país e enriquecê-lo com cultura própria por em cima das banalidades globalizantes. Aquela grande mulher, diasporada pela ciência, estava a falar com a maior emotividade da necessidade de dar valor ao próprio, a aquilo que apenas aprecias quando o perdes por momentos, com a sua falta na distância, matéria de saudades... Não é possível –dizia ela- que os jovens percam o hábito de falar crioulo, mesmo em casa, e que os pais não sejam conscientes da perda de tanta riqueza, do desprezo terrível ao próprio. Lembrei então uma interessante e apaixonada conversação, de há uns anos, à hora do chá, na Praça de Sintra (em um desses terraços para turistas perto do Palácio Real) com o também lingüista Tjerk Hagemeijer (grande entusiasta dos crioulos), justamente sobre o mesmo tema. Mas, a pesar da paixão, o nosso era um olhar estrangeiro e o de Inocência é a voz da consciência mesma dos são-tomenses, a responsabilidade toda de denunciar algo que se pode reconduzir. Nessa altura, estávamos completamente certos que, apesar dos esforços científicos (a fazer uma gramática e um dicionário), tanto o crioulo forro como os outros podem tornar-se em poucos anos línguas mortas, sem a sua introdução nos currículos escolares..., por tanto devendo atender a uma decidida vontade dos próprios são-tomenses, ainda não muito explicitada. Inocência estava a ser -pensei eu- uma voz privilegiada dessa vontade, mas não sei se ainda minoritária de mais. Trás os seus lampejos de emoção, tinha a valentia de denunciá-lo energicamente para alertar os presentes e arrecadar o apoio de tão excelentíssimas autoridades. Ela estava a expressar na realidade: vocês todos, façam alguma coisa, passem à ação, pelo amor de Deus!! Ela estava a exorcizar um perigo, um demônio subtil escondido nos desfazeres da saotomensidade.
       
      Desde a minha óptica catalã, não posso concordar mais com o chamamento da doutora (na Catalunha temos levantado há muito tempo uma questão parecida com a língua). As suas palavras me transportavam também à lembrança da magnífica exposição multimédia “Vozes" no Fórum Universal das Culturas de Barcelona (2004) pela qual se mostrava a imensa diversidade lingüística do planeta através de uns videoclipes de apenas uns instantes, de pessoas a falarem cada uma na sua língua, muitas línguas do mundo, mesmo as mais remotas e esquecidas... Quanta riqueza desconhecida, quantas culturas por apreender!! Curiosamente na escrita de apresentação, o jornalista Vicenç Villatoro também nessa ocasião falava de “polifonias”, quando defendia a necessidade de preservação dessa riqueza lingüística (defendê-la dos perigos e fragilidades) com as “possibilidades oferecidas pelas tecnologias na direção de ampliar a visão do mundo de indivíduos e sociedades”. Ninguém pode renunciar a isso e, por tanto, ninguém pode renunciar a manter as línguas das nossas ilhas, não unicamente por uma necessidade nacional, senão porque, de fato, são também patrimônio intangível da humanidade. Mais razão, pois, na chamada da doutora Mata... Estou certo que para ela a “luta ainda não acabou”, como adverte Tozè Cassandra no posfácio do livro. E com certeza, tínhamos lá, frente a nós, a Inocência Mata mais política, denunciando algo muito transcendente para o futuro do país, a necessidade de proteção mesma da identidade cultural, reclamando a necessidade de uma nova maneira de promover a cultura, analisando, detectando um problema imanente na própria base da sociedade, uma questão a resolver.
       
      Agora volto às minhas leituras para constatar que Inocência é professora de profundezas, de não deixar nada sem escrutar varias vezes, à frente e atrás, de afastar completamente a superficialidade e também as friezas de análises falsamente objetivas, para expressar o que ela sabe perceber além da própria escrita. Ela está atenta especialmente à semiótica da mensagem poética, ao ler entre linhas o que o autor está a comunicar, o que está detrás das palavras e que permite dar valor além de leituras direitas, rápidas..., a dar com os motivos dos autores, enquanto pessoas bem humanas. Inocência Mata é quase adivinha, ao desfiar pouco a pouco as inquietudes, as razões secretas, os exorcismos todos desses autores e a pôr-lhes no seu contexto apropriado.
       
      Tenho lido já, com atenção, o artigo dedicado a São Deus Lima -autora que adoro na distância, mas mais ainda na proximidade das suas letras e nessa mistura de sensibilidade, ternura e contundência na expressão-. Com a sua análise, Inocência parece extrair mais significados, mais sentidos dos que aparentemente estão nos versos... De São ressalta especialmente a sua proposta narrativa pós-colonial sobre a realidade da nação são-tomense (não sei se São é já consciente de estar a liderar essa nova narrativa?), que enfatiza o fato das segregações sociais, marginações com os serviçais e tongas das roças. Está, por tanto, a mostrar uma “nova colonização” dirigida desde a cidade: “O coração da cidade o acolhe e o repele”, denuncia São (a relação "dentro e fora" que já se ponha em evidência no funcionamento da desaparecida Feira do Ponto). Inocência desvela esses significados transcendentes que estão a conformar um novo corpus político, que, por acaso, se expressam crípticos, escritos para os bons entendedores, e para apresentar com sentimento o que está a acontecer na mesma pele da sociedade são-tomense dos nossos dias. Mas é preciso não deixar para a história essas mensagens tão atuais. De aí o interesse da análise sociolingüística, de aí o interesse de ler em voz alta esses poemas.
       
      Esse entroncamento entre as formas, as gírias literárias e os significados reais, com certeza, tem efeitos diferentes dependendo da informação do leitor, e eu acho que também os terão dependendo da paisagem, do lugar. Esses cantos dramáticos à vida de degredo, a denúncia das separações entre grupos sociais pela origem, da dura luta pela vida, por essa dignidade das pessoas, às chamadas à justiça,..., decerto teriam mais força declamados numa senzala cheia, num púlpito na proximidade da roça (a roça, alcatra do Golfo da Guiné!). Não tem o mesmo efeito se estão a ler-se recostado na cadeira do avião, ou mesmo numa biblioteca na Cidade... Eu acrescentaria, então, outro grito (o meu ainda mais enfermiço): experimentem, Inocência e São, a poesia toda, aquela que fala das roças e dos serviçais e tongas, mesmo lá, onde ainda mora essa gente. As leituras entre linhas vão lá aparecer sem dúvida sem muitas explicações científicas, sem muitas gírias; vão emanar mesmo das pessoas, e vocês vão calar ao fundo do seu coração. Isso sim seria um bom “exorcismo do demônio”, um paga-devê definitivo: a poesia se torna então vida mesmo e reverte na alma dos seus protagonistas! A próxima apresentação, minhas caras, a fazer mesmo na senzala de Uba-Budo: levem consigo a cidade para lá!
       
      Mas volto mais uma vez do flashback, para advertir do interesse, não apenas acadêmico, de dar uma lida a essas análises, porque ajudam, sem dúvida, a entender mais ainda (ainda que seja nalgum momento desde o seu particular olhar e entender) o transfundo das escritas e as inquietudes mesmas dos autores. Escrever poesia não é um ato inócuo e ler entre linhas e de fato decodificar razões, os motivos para sentar-se a escrever e desafogar essa paixão conteúda, aquilo que de outra forma seria mais difícil de fazer. E as análises invitam também a reler os poemas, agora desde outra perspectiva, muito mais fundada e crítica.
       
      Inocência Mata vai precisar também no futuro de quem faça uma análise entre linhas das suas escritas (uma meta-análise!!, uma análise da análise; talvez em uma autobiografia), que permita ir também além da escrita para avaliar se os exorcismos pessoais tiveram também com o tempo e a insistência um efeito sobre os demônios e perigos vários que espreitam essa amada terra, essas prezadas pessoas.
       
       
       
       
    Your message has been successfully submitted and will be delivered to recipients shortly.